Morro da Tapera é piquete da inclusão

 

Hospitalidade não se resume a receber todos a toda hora. É preciso receber bem. O sentimento de aconchego típico do Acampamento Farroupilha foi o objetivo máximo do DTG Morro da Tapera nas comemorações deste ano. Para isso, uma estrutura especial foi montada para atender às necessidades de todos. Nesse trabalho, a acessibilidade do piquete foi uma preocupação. Além da rampa de acesso ao galpão, corrimão, piso cuidadosamente pregado e banheiro ecológico para cadeirantes foram instalados no lote.

Tudo foi preparado com esmero para receber os deficientes, que acompanhados de seus amigos reuniram-se no Morro da Tapera para momentos de descontração. Foi o caso de grupos de amigas que se encontraram para almoço no sábado (17/9). Convidadas pela servidora do Judiciário Cristina Mazuhy, as “Inclusivass” aproveitaram a estrutura, reunindo mulheres com deficiência e simpatizantes da causa. Consultora do Plano de Gestão pela Qualidade do Judiciário, Cristina atualmente opera com a gestão de projetos de acessibilidade do TJ. A baixa visão não lhe impede de se destacar dentro do Poder com liderança e força.  

Segundo Josiane França, integrante do grupo, o objetivo é desmitificar a ideia de que as mulheres deficientes são “coitadinhas” e precisam de tratamento diferenciado. “A gente luta por nossos direitos e pela visibilidade das mulheres deficientes. Já mostramos que somos capazes, claro que tendo as nossas ferramentas como qualquer outra pessoa. A sociedade quer nos esconder. Nós estamos estudando, nos capacitando e conquistando nossos espaços”, argumenta Josiane, que atua como modelo e é integrante Movimento Brasileira de Mulheres Cegas. A limitação visual veio aos 30 anos quando ela teve meningite durante a gravidez de seu filho Rodrigo. Emocionada, conta que conseguiu ver o bebê e, ao poucos, foi perdendo a visão. Depois de ficar em coma por um mês, acordou cega. “Eu vi que eu só estava cega, mas continuava viva”, salienta otimista sem nunca perder o sorriso no rosto.

O movimento da Inclusivass começou em 2014 em um seminário realizado no Palácio da Justiça. O grupo ainda inclui cadeirantes, mulheres vítimas de bala de fogo, surdas e muletantes. A cadeirante Liza Cenci levou a família para o piquete da ASJ neste ano. Inclusiva, ela também é presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. A limitação nos movimentos veio devido à doença genética rara que levou-a a diversas amputações. Atuante e consciente de seus direitos, Liza diz que a doença “não lhe impediu de fazer nada na vida”. “Tudo com maior dificuldade, mas eu tenho o direito de fazer. Vir no Parque Harmonia faz parte do meu direito de ir e vir. Eu quero a minha cidade mais acessível”. Ao lado da irmã também cadeirante, Liza pontua que faltam políticas públicas e fiscalização das normas de acessibilidade. “Temos legislação que nos protege e nos dá acessibilidade, mas ela não é cumprida. Falta uma fiscalização mais afetiva”, pontuou. Frequentadora do Parque da Harmonia, destacou o fácil acesso do piquete da ASJ e agradeceu a acolhida. 

No mesmo dia, o piquete também recebeu integrantes da confraria das Chimarrudas, oito mulheres que cultuam o consumo do chimarrão em diferentes locais, quatro delas integrantes do Judiciário. “A gente toma chimarrão no parque, no shopping e até no bar”, conta a servidora aposentada Anna Burmann, que, ao lado do marido Willy Burmann Neto, preparava o assado da turma. “A proposta é beber chimarrão. A gente até pode estar tomando outras coisas, mas a bebida principal é o chimarrão”, conta Anna.